VideBula 2 – Episódio 7: Doença de Alzheimer
🎵 ABERTURA – vinheta do VideBula 🎵
Pati: Oi, oi! Tá começando mais um VideBula!
Raíssa: Eu sou Raíssa Saraiva.
Pati: E eu sou Patrícia Serrão.
Raíssa: O episódio de hoje é sobre aquele diagnóstico que aparece quando a memória costuma falhar de um jeito que não é normal, sabe? Então, estamos no Setembro Lilás, o mês de conscientização da doença de Alzheimer.
Pati: A doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência no mundo. E nos últimos anos entrou numa nova fase: pela primeira vez, existem tratamentos que modificam o curso da doença — e não só os sintomas.
Raíssa: A gente gosta de colocar pessoas com a vivência da doença nos nossos episódios, sempre. Porque nós duas somos raras e a gente entende que, por mais que nossas mães, pais, maridos ou filhos estejam perto da gente, as vivências de quem tá passando por aquilo na pele são diferentes.
Pati: Mas nesse episódio vocês vão ouvir só uma especialista falando. Isso porque a gente teve uma discussão séria sobre se seria ético ou não colocar alguém que pode não ter pleno entendimento sobre o que está consentindo — no caso, a entrevista — e das repercussões disso. E achamos melhor não colocar.
🎵 Trilha de transição🎵
Pati: A minha avó Filomena tem Alzheimer. Infelizmente, acabei adquirindo uma vivência dessa doença que eu preferia não ter. E ao ver minha avó, eu sinto que às vezes, apesar dela conseguir conversar, não necessariamente ela entende completamente tudo, e eu não me sentiria bem compartilhando as falas dela. E se eu não me sentiria bem compartilhando as falas da minha avó, eu não colocaria as de nenhuma outra avó.
Raíssa: Para falar sobre isso, a gente conversou com a Bruna Antinori, gerente médica da Biogen. Bora pro episódio?
🎵 Trilha de transição🎵
Raíssa: A primeira pergunta de todo mundo: como saber se o esquecimento é normal ou já é parte da doença, Bruna?
Bruna: É normal que com o envelhecimento a gente acabe esquecendo. Demore mais para lembrar o nome de pessoas, esquecer onde a gente deixou determinados objetos. Mas o que diferencia de fato a doença de Alzheimer desses esquecimentos comuns é, primeiro, a frequência com a qual esses sintomas se repetem, esses esquecimentos, esses quadros de esquecimento se repetem. E não só a frequência, né? Mas conforme esses sintomas vão progredindo ao longo do tempo. Então, existem alguns sintomas iniciais mais comuns que podem estar associados a esses quadros iniciais de doença de Alzheimer: o esquecimento frequente de informações recentes, né? Muitas das conversas que a gente tem no nosso dia a dia, a gente acaba se esquecendo. ‘Poxa, o que foi mesmo que eu falei? O que foi mesmo que aquela pessoa me perguntou?’ Repetição de mesmas perguntas ou das mesmas histórias com muita frequência. Esse é um ponto também importante pra gente ficar atento. Um ponto muito importante é em relação à dificuldade que as pessoas passam a apresentar para se organizar e se planejar na realização de tarefas, coisas que faziam anteriormente, mas deixam de fazer, por conta não só de esquecimento, mas por ter essa parte do planejamento prejudicada, esse é um ponto bastante importante. Pessoas que eram habituadas a fazer contas, têm dificuldade em voltar a fazer contas, administrar as próprias finanças, pagar as próprias contas. Esse pode ser um sinal de alerta, né? Outro ponto importante são alterações de linguagem, então esquecimento ou dificuldade de encontrar palavras para compor uma frase, e um sintoma que deixa de ser associado a esquecimento ou memória, mas que é super relevante dentro do contexto da doença de Alzheimer, são as mudanças de humor. Então quadros de depressão principalmente, né? Quando a gente fala em alterações mais relacionadas à mudança de humor, principalmente quadros depressivos podem ter uma grande associação à doença, então é sempre importante que se faça esse diagnóstico diferencial. Uma pessoa saudável, ela pode esquecer eventualmente determinadas questões, onde colocou a chave, não lembro o nome de tal pessoa, né? Esse esquecimento isolado não nos preocupa. O que nos preocupa, e o que chama atenção, é a frequência e a progressão desses quadros do esquecimento também, né? E o impacto na qualidade de vida das pessoas.
Pati: Repetir a mesma pergunta muitas vezes. Se perder em contas e planejamento. Mudanças de humor. São os pequenos sinais que, juntos, merecem atenção — e podem aparecer antes até do esquecimento e da perda de memória.
🎵 Trilha de transição🎵
Raíssa: E por que o diagnóstico precoce faz tanta diferença?
Bruna: Ao diagnosticar mais cedo, a gente oferece, tem como oferecer, não só mais oportunidades de tratamento, mas eu diria mais além, né? Assim, mais oportunidades de intervenção, de planejamento e de qualidade de vida. Então hoje, as terapias que são aprovadas para tratar a doença de Alzheimer, reconhecidas como modificadoras de doença, são terapias que têm como indicação pacientes em fases iniciais, com declínio cognitivo leve ou comprometimento cognitivo leve ou demência leve por doença de Alzheimer, tá? Mas indo mais além, o diagnóstico precoce é importante para que também a pessoa participe desse processo diagnóstico, ainda estando numa posição de poder participar ativamente. Isso é muito importante, de poder tomar as suas próprias decisões. Tendo o diagnóstico mais precoce, a família também consegue se organizar de uma maneira mais eficaz para poder cuidar daquela pessoa pensando num futuro já de uma doença moderada ou grave. Hoje nós já temos dados de praticamente 4 anos de pacientes sendo tratados com drogas modificadoras de doença e esses resultados têm mostrado cada vez mais que esse tratamento ao longo dos 4 anos reduz de uma forma bastante expressiva a progressão da doença quando comparado àqueles pacientes que não foram tratados. Então, eu acho que num geral, falar sobre diagnóstico precoce, a gente não tá falando só sobre oportunidade de intervenção, mas a gente tá falando sobre uma modificação do curso da doença de Alzheimer.
Pati: E quem procurar nesse caso? Geriatra, neurologista, psiquiatra — mas também o clínico geral, o cardiologista, o endocrinologista. O diagnóstico precoce depende de todo mundo da equipe de saúde ficar de olho nos sinais.
🎵 Trilha de transição🎵
Raíssa: Agora, aquela parte que mudou o jogo: como os novos tratamentos funcionam? A explicação da Bruna é das melhores e mais simples que a gente já ouviu.
Bruna: Os tratamentos que tínhamos até então eram tratamentos sintomáticos, né, e que reduziam um pouco a carga de sintomas que vinha associada à doença de Alzheimer, mas não mudavam o curso da doença. Hoje, esses tratamentos, que são as terapias anti-amiloide, elas agem onde de fato acontece a biologia da doença. Então 15 a 20 anos antes dos primeiros sintomas clínicos, começa a acontecer, no cérebro, o acúmulo de proteínas que não deveriam estar acumulando naquelas regiões cerebrais. Então, a primeira delas é a proteína amiloide. Então, por um erro de limpeza do próprio cérebro, tentando falar numa linguagem aqui um pouco mais leiga, né, então, a proteína amiloide, ela vai circular, ela vai ter acesso ao cérebro, ela vai circular no sistema nervoso central, mas ela tem que ser depurada, ela tem que ser eliminada do cérebro, para que ela não se acumule. Na doença de Alzheimer, o que acontece é uma falha nesse processo de limpeza e a proteína amiloide começa a se acumular progressivamente no cérebro próximo aos neurônios. Esse acúmulo de proteína amiloide, ele já inicialmente tem uma característica muito tóxica. Então a gente diz que essas primeiras proteínas que começam a se acumular, elas são neurotóxicas, elas são tóxicas para o sistema nervoso central, que são as fases iniciais do acúmulo da proteína amiloide. À medida que essa proteína se acumula, ela vai formando mesmo aglomerados de proteína, que formam no final a placa amiloide. O que as terapias anti-amiloide tem como base, como princípio e mecanismo de ação para realizar? A retirada dessa proteína. Existem diferenças entre as terapias disponíveis no mercado que tem como alvo placa ou mecanismos que removem além da placa. Essa cascata, e a placa final, o que elas fazem é comprometer a comunicação interneuronal, além de provocar uma inflamação também no sistema nervoso central, no cérebro, que também vai prejudicar as sinapses. Vai prejudicar o funcionamento adequado dos neurônios, e, por fim, provocar a morte desses neurônios, a neurodegeneração e a progressão da doença.
Pati: E por isso não se fala em cura: a limpeza precisa continuar. Se o tratamento para, a placa volta a se acumular ao longo dos anos.
Raíssa: Mas tem jeito de fazer esse diagnóstico antes dos sintomas aparecerem? Quer dizer, eu posso fazer algum exame pra saber se essas proteínas estão se acumulando mais do que deviam?
Bruna: Cada vez mais, as pessoas vão ter acesso a exames que vão permitir fazer esse rastreio do acúmulo da proteína amiloide, tá? Mas hoje não é indicado que uma pessoa sem sintomas, ainda num estágio que a gente diz assintomático, vá buscar esse tipo de rastreio. Não existe essa indicação. Não existe essa indicação em bula, até porque também não teriam tratamentos voltados para isso. Hoje a gente sabe que existem 14 fatores de risco. Esses 14 fatores de risco são muito importantes porque eles estão totalmente relacionados ao desenvolvimento da doença de Alzheimer. No mundo, esses fatores de risco já foram mapeados e eles são responsáveis por 45% do risco da pessoa vir a desenvolver a doença, se ela tiver esses 14 fatores. O mais impressionante é que quando a gente olha para o Brasil e esses resultados, também publicados, em 2024, por um grupo super forte aqui do Brasil, liderado pela pela doutora Cláudia Suemoto, nos mostram que, no Brasil, esses 14 fatores de risco representam 60% da chance da pessoa vir a desenvolver a doença de Alzheimer. Ou seja, se a gente modifica esses 14 fatores, a gente reduz expressivamente a chance de vir a desenvolver a doença. E são fatores de risco muito voltados à nossa saúde, principalmente cardiovascular. Ao nosso bem-estar físico, ao nosso bem-estar mental.
Raíssa: E quais são esses fatores, Bruna?
Bruna: Eu escuto às vezes alguns especialistas falarem ‘o que faz bem para o coração, faz bem para o cérebro’, de fato faz, né? Porque quando a gente controla hipertensão, diabetes, colesterol, obesidade, esses já são quatro dos 14 fatores de risco que têm um impacto enorme na redução do risco da doença de Alzheimer. Escolaridade também é um desses fatores; então é algo que a gente não vai agir na vida adulta, mas é importante em termos de políticas públicas para a gente pensar, ‘poxa, lá atrás desde a infância o que é promovido e oferecido na infância vai sim ter um impacto na vida adulta’, falar de escolaridade. Outros fatores como prática de atividade física, importantíssimo, né? Então assim, é aquela coisa meio clichê de ‘faça atividade física, que você vai melhorar sua saúde, vai se prevenir de várias doenças’ e de fato isso é comprovado cientificamente, a gente previne. Praticar atividade física tem um impacto grande na prevenção da doença de Alzheimer. E outros pontos importantes como isolamento social, isso é muito interessante. Então pessoas que tendem a ficar mais isoladas, têm mais risco de desenvolver a doença de Alzheimer. Perda auditiva quando não tratada, né? Então, se a pessoa não usa um aparelho auditivo para aumentar a sua interação social mesmo, ela pode ter um maior risco de vir a desenvolver a doença. E alteração visual também. Além desses fatores, existem outros como trauma craniano e poluição do ar.
Pati: E a perda de audição tem um efeito curioso: não é a audição em si que leva ao Alzheimer, é o que a pessoa deixa de fazer por causa dela — deixar de interagir, deixar de usar a reserva cognitiva.
Bruna: A gente fala muito que pessoas que têm uma maior reserva cognitiva, ou seja, aquelas que estudaram mais, que têm o hábito de ler, que têm o hábito de conversar, e de debater, são pessoas que acabam tendo uma reserva cognitiva maior e que, de uma certa forma, preserva mais esse cérebro, para não perder tanto ao longo do tempo. Talvez tentando fazer um paralelo aqui com quem tem uma condição muscular mais preservada, se uma pessoa que tem um preparo físico muito, muito bom, assim, de força muscular, de resistência cardiovascular, se ela por algum, em algum momento sofre algum acidente, e fica imobilizada por um tempo, essa pessoa que tem uma reserva muscular maior, um preparo físico maior, ela com certeza vai ter uma melhor resposta ao tratamento na recuperação dessa função que foi perdida. O mesmo a gente pode trazer aqui para o Alzheimer, não num contexto de que vai recuperar o que foi perdido, porque isso hoje ainda não acontece, mas é uma reserva cognitiva que vai permitir com que essa pessoa tenha por mais tempo parte do seu cérebro mais preservado nesse sentido.
Raíssa: Por isso a gente escuta tanto falar que ler, aprender línguas, instrumentos, fazer palavra cruzada. Não é vacina — mas é reserva. A Bruna também alerta: telas e redes sociais não estimulam essa bagagem cognitiva. Então, daqui a algumas décadas, provavelmente estaremos tendo essa conversa sobre os jovens de hoje.
🎵 Trilha de transição🎵
Pati: E para fechar, o recado que resume o mês de conscientização.
Bruna: Que a gente tente quebrar um pouco desses tabus, que a gente tente tirar um pouco desse estigma, né? Falar em doença de Alzheimer, talvez o peso do diagnóstico seja algo que abala muito o familiar, a pessoa que foi diagnosticada, mas a gente tem que tentar quebrar um pouco desse tabu de falar sobre isso, sobre esquecimento, sobre perda de memória, porque existem oportunidades de intervenção, né? Além das oportunidades terapêuticas e cada vez mais vão surgir novas terapias relevantes com impacto muito importante no decorrer de toda a doença, mas é importante que a gente fale cada vez mais, porque as pessoas têm que perder um pouco dessa vergonha de procurar ajuda tão precocemente, e pensar que tem como intervir muito cedo. Precocemente, é muito melhor intervir cedo do que lá na frente, onde já nesse momento não existem tantas opções efetivas mesmo e terapêuticas.
🎵 Encerramento🎵
🎵 Trilha de fundo 🎵
Raíssa: A doença de Alzheimer ainda não tem cura. Mas já não é mais aquela doença de anos atrás.
Pati: Hoje existe o que fazer — e o que fazer depende de diagnóstico cedo, de informação e de tirar o estigma do caminho.
Raíssa: Esquecer a chave uma vez é humano. Esquecer com frequência, repetir perguntas, se perder em tarefas simples — aí já merece atenção. E procurar ajuda não é motivo de vergonha. É cuidado.
Pati: Esse foi o VideBula de hoje. Uma produção original da Radioagência Nacional.
Raíssa: Edição de Bia Arcoverde. Áudio e sonoplastia por Toni Godoy. Em Brasília, áudio de Jaime Batista.
Pati: Episódios anteriores disponíveis nas plataformas de áudio, no site da Radioagência Nacional e com interpretação em Libras no Youtube.
Raíssa: Para mais informações, VideBula!
Pati: Até o próximo episódio!
🎵Vinheta de encerramento🎵
Fonte: Agência Brasil
