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'Sou mãe de uma criança trans': após adoção, professora do DF relata desafios para ajudar filha

Por PATRICIA em 22/05/2022 às 04:58:17

Criança vivia em abrigo desde os 3 anos e chegou a ser 'devolvida' pelos primeiros candidatos à adoção. 'Deus não gosta de você', diziam cuidadores. Menina trans de mãos dadas com os pais, após adoção no DF

Arquivo pessoal

Pollyanna é um nome fictício para uma menina de carne, osso e uma cabeça cheia de lembranças de humilhação, abandono, preconceito, violência física, psicológica e verbal. Aos 3 anos de idade, ela foi retirada da família biológica, pela Justiça do Distrito Federal, por maus-tratos e negligência.

Levada para um abrigo, em Brasília, Pollyanna não era aceita, e conta que ouvia dos cuidadores, com frequência, a frase: "Deus não gosta de você". Ela chegou a ir para a casa de uma família habilitada para a adoção, mas foi "devolvida" porque "não se adaptou".

Pollyanna nasceu menino, mas não se reconhecia como tal. Aos 8 anos, ela é uma menina trans que que escolheu ser chamada assim na reportagem porque, tal qual a personagem do livro de Eleanor H. Porter, publicado em 1913 acredita no "jogo do contente", onde é possível extrair algo bom mesmo das coisas mais difíceis.

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No ano passado, Pollyanna conheceu um casal que quis adotá-la. A mãe, professora da rede pública do Distrito Federal luta agora para que a filha supere os traumas e tenha o direito à infância.

"Sou mãe de uma menina trans e só quero acolhê-la para que ela seja feliz", diz a professora.

Segundo a ativista pelos direitos trans infantojuvenil, Thamirys Nunes, "cientificamente, aos 24 meses de vida, a criança tem condições cognitivas de entender o que é gênero, dentro das limitações do que é ser criança". Thamirys fala não apenas do ponto de vista de quem estuda o assunto, mas também como mãe.

Autora do livro "Minha criança Trans", ela viveu, na pele – e no coração – a dificuldade de acompanhar o desenvolvimento da filha, atualmente com 7 anos. Desde "muito cedo", o bebê, que nasceu com o gênero masculino, não se identificava como menino, conta ao g1 a jornalista, que mora em Curitiba, no Paraná.

À procura de ajuda, Thamirys e o marido chegaram a seguir o conselho de uma psicóloga que orientou a família a tirar de casa tudo o que fosse cor de rosa ou que fizesse menção ao mundo feminino – dos livros infantis de princesas às gravuras e ilustrações. A criança tinha 2 anos à época e, segundo a mãe, "era triste e infeliz".

As tentativas para fazer com que a criança assumisse o gênero masculino duraram dois anos. Nesse período, Thamirys conta que o "mundo masculino" provocava angústia e dor à criança.

"Minha criança não gostava de bola, não gostava das brincadeiras, chorava quando diziam que era parecida com o pai. Os estímulos masculinos causavam sofrimento e recusa", conta Thamirys.

'Se eu morrer, posso nascer menina?'

Thamirys Nunes e o marido beijam a filha

Arquivo pessoal

Thamirys diz que quando a criança completou 4 anos, ela e o marido perceberam que, o até então "filho", conseguia expressar apenas uma permanente tristeza. Perguntado sobre o motivo, a resposta era sempre a mesma.

"É triste porque não nasci menina", dizia a criança.

Nesse período, em 2019, a mãe conta que ela e o marido começaram a entender que o filho não era "só um menino que gostava de brincar de boneca". Mas foi uma pergunta da criança que fez com o casal decidisse "mudar a chave":

"Se eu morrer, posso nascer menina?", perguntou a criança, aos 4 anos de idade.

Percebendo a consistência, a insistência e a persistência do filho em se declarar menina, os pais resolveram encarar "um processo de muita dor e julgamento da família, dos amigos e da sociedade", nas palavras de Thamirys, para começar a transição de gênero do filho.

"Encontrei um brilho nos olhos, um olhar feliz, que ela nunca tinha tido. Ouvir ela cantarolar enquanto brincava de boneca me mostrou que eu estava no caminho certo", lembra Thamirys.

Atualmente, com 7 anos, a menina se declara uma criança feliz. Frequenta a escola, tem amigos e motiva a mãe a trabalhar, de forma voluntária, para que outras crianças trans sejam ouvidas, percebidas, acolhidas e entendidas pelos adultos, "sem ideias pré-concebidas sobre gênero", diz Thamirys.

"Não é um processo fácil, mas nosso amor dá conta de viver essa transição. A sociedade condena, diz que é só tua família, mas acontece em várias e, tá tudo bem, nos fortalecemos juntos", aponta a jornalista.

'Gênero é construção social, não é nato'

Pais de menina trans mostram tênis que compraram para presenteá-la, enquanto aguardavam chegada em casa, no DF

Arquivo pessoal

Ernesto Nunes Brandão é psicólogo, com mestrado em psicologia do desenvolvimento humano. Ele pesquisa infância e transexualidade e é membro da Comissão LGBTQIA+ do Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal.

"Tendo-se uma criança trans, não é algo a ser tratado clinicamente, é uma identidade. Num mundo 'cisnormativo', uma criança que se coloca em um lugar contrário a isso, ela desorganiza os adultos em torno", diz Ernesto.

No consultório, em Brasília, ele atende crianças e adolescentes trans. Atualmente, Ernesto acompanha seis pacientes com idade entre 4 e 12 anos, bem como as famílias que, segundo ele, precisa ser acolhida para que se fortaleça e consiga cuidar dessa criança, que sofre porque "está frustrando uma normativa", que é a questão de gênero ligada, unicamente, ao "nascer com vulva ou com pênis".

"Gênero é construção social, não é nato. Assim que a criança se apropria dos códigos culturais, ela já pode apresentar divergências", explica o psicólogo.

Ernesto lembra que há pouquíssimos estudos sobre crianças trans e que o assunto é um tabu. No entanto, a partir dos 2 anos de idade, um bebê já pode começar a desenvolver estranhamentos em relação ao gênero.

Mas, atenção, diz o pesquisador: "Não estamos falando de brincadeiras, quando as crianças brincam de inverter papéis e de 'faz de conta'. É preciso diferenciar entre as brincadeiras e um sofrimento real e contínuo."

A história de Pollyanna, a criança que 'não iria para o céu'

Pais e irmão de menina trans, enquanto esperavam pela guarda da criança que foi adotada no DF

Arquivo pessoal

Depois de ser "adotada e devolvida" ao abrigo, Pollyanna começou a ser atendida, de forma voluntária, por uma psicóloga. A profissional percebeu que a criança não se identificava com o gênero masculino e que se via como menina.

Por isso, ouvia das outras crianças – e também dos adultos – na instituição e na escola, que "não iria para o céu". Quando tentava deixar o cabelo ou as unhas crescerem, eles eram cortados sempre bem curtos, mas ela insistia em fazer gestos como se ajeitasse, a todo momento, longos cabelos imaginários.

Pollyanna era obrigada a brincar com os meninos e a participar apenas das "brincadeiras de menino". Era vestida com roupas masculinas, cobrada para que caminhasse, sentasse e se portasse como um menino.

Aos 7 anos, ela já havia desenvolvido Transtorno Desafiador de Oposição (TOD), uma condição caracterizada por padrões recorrentes de comportamento negativo, e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), um problema neurobiológico que pode contribuir para a baixa autoestima, relacionamentos problemáticos e dificuldades na escola.

Foi quando, em 2021, seu caminho se encontrou com o do casal de professores de Brasília . A mulher já havia adotado sozinha, em 2015, um menino de 5 anos, negro, autista e com baixa visão.

Com o companheiro – que assumiu a paternidade do primeiro filho – ela se habilitou novamente, na Vara da Infância e da Juventude do Distrito Federal. Após serem considerados aptos legalmente para ter o segundo filho, eles conheceram Pollyanna.

"Foi amor à primeira vista", diz a professora.

Foram fotos, vídeos e, na data marcada para primeiro encontro, no abrigo, foram apresentados à criança. Pollyanna usava roupa de menino, mas, conforme a mãe, no momento em que viu a viu, o pai percebeu que se tratava de uma criança trans.

Chamada pelo nome masculino no abrigo, na primeira vez em que saiu para passear com os pais, Pollyanna pediu para ser tratada como menina. Com o apoio de psicólogos, o casal aceitou o desafio.

Ilustração mostra criança que, ao se olhar no espelho, se enxerga com outro gênero

Clari Cabral/BBC Brasil

Depois, a criança também pediu um vestido e calcinhas. Nos meses de convivência, antes da adoção ser formalizada, ela foi tratada pela família, inclusive pelo irmão, quatro anos mais velho, como menina. Porém, cada vez que voltava para a instituição, tinha que, de novo, retomar o comportamento que lhe era exigido, de menino.

"A questão de gênero nunca foi acolhida pelo abrigo", diz a mãe.

Em dezembro de 2021, a família recebeu a guarda do Juizado da Infância e Juventude do Distrito Federal e Pollyanna foi para casa. Os pais a matricularam em uma nova escola, onde apenas a direção e a secretaria sabiam o nome e o gênero com os quais a criança havia sido registrada, uma vez que a nova certidão, com o nome da família, só é emitida após o período de guarda.

Na última semana, enquanto a mãe conversava com o g1, por telefone, Pollyana – que estava por perto e percebeu – pediu para falar com a reportagem. Com voz firme e suave, a menina disse que contou também ao professor sua condição de gênero.

Ao perguntar por que, ela respondeu que o professor precisava saber para deixar que ela fosse ao banheiro sozinha, já que as colegas gostam de ir em grupo. Pollyanna diz que não entende o motivo das meninas quererem ir ao banheiro juntas, mas também não quer que as amigas a vejam "fazendo xixi".

A criança também contou que está feliz na nova escola porque todos a tratam como menina. Para a mãe de Pollyanna, esse é o primeiro passo, de muitos, que ela sabe, serão lentos e difíceis.

"Estamos no processo de adoção há quase 5 meses e não tem sido nada fácil. Estamos em tratamento psiquiátrico e terapêutico para podermos acolher as demandas da nossa filha", diz a mãe.

'É preciso uma aldeia para se educar uma criança"

Criança brinca com boneca, em imagem de arquivo

Letícia Gomes

A mãe de Pollyanna cita o provérbio africano de que "É preciso uma aldeia para se educar uma criança", para expressar a necessidade de apoio quando se tem um filho trans. Por causa do Transtorno Desafiador de Oposição (TOD) e do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), ela tem dificuldades na escola.

A medicação tradicional, "tarja preta", como conta a mãe, não tem mais sido suficiente e nem eficiente. A psiquiatra receitou um medicamento à base de Canabidiol, aprovado para fins medicinais, no entanto, o custo é alto, lamenta a professora, ao dizer que "é muito doloroso não dar conta da demanda de um filho".

"Queremos muito poder oferecer a ela o tratamento a que tem direito, para que a ela seja restituído tudo que a vida lhe tirou", diz a mãe.

Por um tempo, a família chegou a deixar roupas de menino – que pertenciam ao filho mais velho – para que Pollyana decidisse se queria usar. Mas ela não quis, e ainda doou para o irmão as roupas masculinas que havia trazido do abrigo.

"A questão da sexualidade, hoje, é o que menos nos preocupa. Os traumas que ela guarda e o uso de muita medicação é o que nos deixa mais preocupados", diz a mãe.

Como buscar ajuda?

Uma pessoa segura bandeira do movimento trans

Brendan McDermid/Reuters/Arquivo

Segundo a ativista pelos direitos trans infantojuvenil, Thamirys Nunes, atualmente 330 famílias brasileiras com crianças e adolescentes trans, entre 4 e 18 anos, são atendidas pela ONG Aliança Nacional LGBTI. A organização presta auxílio, como encaminhamento para ambulatórios que atendem questões de gênero.

O psicólogo Ernesto Nunes Brandão aponta que o número de famílias com crianças trans é "infinitamente maior" do que aquele que se reflete nos atendimentos. O pesquisador lamenta a falta de estudos sobre o assunto, que ainda é tratado com preconceito, vergonha e "segredo".

Segundo ele, ao invés de "policiar" as atitudes dos meninos e meninas, quando fazem "performances de gênero", os adultos devem acolher para que possam perceber se elas estão brincando simplesmente, ou se o comportamento é repetido e gera algum tipo de sofrimento psíquico.

Para ele, crianças trans acabam passando por uma série de violências – físicas, verbais e psíquicas – que podem gerar graves transtornos, como ansiedade e depressão, por elas terem que abrir mão do espaço da infância.

"Adultos trans falam de incômodos 'não nomeados' ao longo de uma vida inteira", diz o psicólogo.

Segundo a ativista Thamirys Nunes, uma criança trans traz, por meses, e até por anos, em mais de um aspecto, suas negativas em relação ao gênero de forma concisa. "Os pais precisam fazer uma maternidade – ou paternidade – de escuta e de observação", diz ela.

Como fazer contato:

Thamirys Nunes: pelo Instagram

Livro: "Minha criança Trans"

ONG: Aliança Nacional LGBTI

Leia mais notícias sobre a região no g1 DF.

Fonte: G1

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