logo banner

Envolvido na morte da missionária Dorothy Stang se apossa de terras públicas no AC e filho é suspeito de tentar matar agricultor

Por PATRICIA em 03/07/2022 às 10:42:14

Patrick Coutinho, filho de Amair Feijoli da Cunha, teria atirado no agricultor após o pai ser agredido em um bar no Ramal Cassirian, em Sena Madureira. Briga ocorreu quando vítima foi cobrar pagamento de uma terra que Amair teria invadido na região. Defesa diz que Amair sofreu tentativa de homicídio e filho o defendeu. Agricultor levou dois tiros, fez uma cirurgia na barriga e foi transferido para a capital

Arquivo pessoal

Amair Feijoli da Cunha é investigado por crimes ambientais no Acre

Arquivo pessoal

Um dos filhos de Amair Feijoli da Cunha, condenado por envolvimento na morte da missionário norte-americana Dorothy Stang, no Pará, Patrick Coutinho da Cunha, é suspeito de atirar duas vezes em um agricultor por causa de uma briga por terras em Sena Madureira, interior do Acre.

LEIA TAMBÉM:

Envolvido na morte da missionária Dorothy Stang é investigado por desmatar e ameaçar moradores de área protegida no AC

"Apesar de Dorothy, as pessoas ainda morrem no campo", alerta ambientalista após 15 anos da morte de missionária no PA

O agricultor havia dado uma paulada na cabeça de Amair, pai de Patrick, e acabou baleado no tórax e na barriga. Ele passou por cirurgia em um hospital de Rio Branco e já se recupera em casa, na zona rural de Sena Madureira. A briga ocorreu no final do mês de abril, mas o agricultor só denunciou o caso em maio quando deixou o hospital.

Ele registrou um boletim de ocorrência na Delegacia de Sena Madureira. A defesa de Amair Feijoli e de Patrick da Cunha alega que os disparos foram para tentar evitar que Amair fosse morto durante a briga. (veja versão completa abaixo).

Amair Feijoli, conhecido como Tato, foi condenado a 18 anos por intermediar a morte de Dorothy Stang. Segundo a Justiça do Pará, foi ele quem contratou os pistoleiros Rayfran e Clodoaldo Carlos Batista para assassinar a missionária a mando de Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, e Regivaldo Pereira Galvão.

Dorothy foi morta a tiros em Anapu, sudoeste do Pará, por lutar pela reforma agrária. Ela coordenava projetos de uso sustentável da floresta em áreas de assentamento do Incra e sofria ameaças de madeireiros na época.

Patrick da Cunha é suspeito de atirar em um agricultor na zona rural de Sena Madureira

Reprodução

Busca e apreensão

Na terça-feira (28), a Polícia Civil cumpriu mandados judiciais na Fazenda Canãa, que estaria ocupada pela família de Amair Feijoli. No local, foram apreendidas três armas de fogo, sendo duas espingardas, um rifle calibre 22, munições calibre 12 e um colete à prova de balas que, provavelmente, seja de patrimônio das forças de segurança.

Quatro pessoas que estavam na fazenda foram presas por posse ilegal de arma de fogo de uso permitido. O delegado responsável pela operação, Marcos Frank, explicou que Patrick da Cunha é procurado pela tentativa de homicídio e o pai dele por ameaçar os moradores e agora pela posse ilegal de arma de fogo.

"Existia uma placa de identificação que foi suprimida, mas a gente tenta verificar se era da PM, Polícia Civil ou outra força de segurança. Essas pessoas estavam em posse das armas. Não localizamos nem ele [Amair] e nem outros familiares. Com o achado dessa munição, ele passa a ser investigado também por esse crime", destacou Frank.

O delegado deve ouvir o grupo preso e decidir ou não pelo flagrante. Caso seja feito o flagrante, os presos vão passar por audiência de custódia.

Polícia apreendeu armas, munições e colete à prova de balas que, provavelmente, seja das forças de segurança

Arquivo/Polícia Civil

Apropriação de terras

O g1 conversou com o agricultor que pediu para não ser identificado com medo de represálias.

Ele acusa Amair Feijoli de se apropriar de uma área de terras que ele comprou há dois anos no Ramal Cassirian, zona rural do município de Sena Madureira. Após a compra, o agricultor afirma que Amair começou a invadir uma área de 5 mil hectares que fica próximo da terra dele e acabou tomando sua propriedade também.

"Disse que era dele. Eu comprei do cara e falei com ele [Amair] para pagar pela terra, que é minha. Ele falou que ia pagar, mas passou dois anos me enrolando. Encontrei ele em um bar, perguntei se ia pagar e ele disse que não ia pagar, que não queria conversa. Falou um monte de coisa e dei uma tacada na cabeça dele", relembrou.

Cobrança de dívida

A briga ocorreu em um bar que também fica no Ramal Cassirian. Segundo o agricultor, Amair estava acompanhado do filho Patrick, de um irmão e outros três homens. Após agredir Amair com um taco de sinuca, o agricultor diz que foi agredido por Patrick.

Ele disse que os dois, então, entraram em luta corporal no estabelecimento e uma pessoa foi até o carro, pegou um revólver e entregou para Patrick. Nesse momento, o agricultor relembra que foi baleado duas vezes e correu para dentro da mata para escapar de outros disparos.

"Corri porque iam me matar. Me escondi para não me pegarem. Me escondi no capim na beira da estrada e eles passaram em uma caminhonete. Fui para casa de um amigo, que me levou para a cidade", complementou.

O agricultor mora com a família no Seringal Remanso, que fica próximo do Ramal Cassirian, onde ocorreu a confusão. O morador acusa Amair também de ameaçar quem vive na região, disse que ele anda armado e com segurança para intimidar os agricultores.

"Quero justiça, mas todo mundo tem medo dele lá, ficam com medo de fazerem algo comigo porque ele anda armado, tem segurança. Está andando com pistoleiro, soube que disse que não vai fazer nada comigo, mas ele anda armado. Não confio", lamentou.

Amair Feijoli foi agredido a paulada por agricultor que briga por terra no interior de Sena Madureira

Reprodução

'Tentativa de homicídio', diz defesa

Ao g1, o advogado Ayres Dutra, que representa a família de Amair Feijoli, afirmou que o cliente sofreu uma tentativa de homicídio. Segundo a defesa, Patrick teria atirado em direção ao chão para evitar que o pai fosse morto na briga. Dutra alegou também que Amair desmaiou e ficou desacordado após a briga.

"Não morreu por sorte porque houve um revide, pegou essa paulada na cabeça por trás. Existe no Acre um movimento muito estranho e ilegal dando força para esses invasores desrespeitarem uma área que vai ser comprovada que está escriturada no Amazonas, existe um proprietário e não foi invadida. A inversão de valores é muito grande, mas já estamos colocando força para descobrir de onde está saindo isso", justificou.

O advogado acrescentou ainda que toda a confusão será esclarecida para que a justiça seja feita. "Esse rapaz que se diz vítima, que foi alvejado, na verdade, é um criminoso, tentou tirar uma vida impossibilitando seu Amair de se defender. Seu Amair só parou lá para tomar um refrigerante e o rapaz deu uma paulada nele", pontuou.

Amair Feijoli é investigado por invadir terras em área de preservação ambiental, ameças e posse ilegal de arma de fogo e munição

Reprodução

Operação contra o desmatamento

Em janeiro de 2021, um grupo de 40 pessoas, entre moradores e invasores da Unidade de Conservação Ambiental Floresta Estadual Antimary (FEA), localizada na BR-364 entre Sena Madureira e a cidade do Bujari, no interior do estado, procurou a Promotoria de Justiça da cidade para denunciar que Amair tinha se mudado para uma fazenda na localidade e estaria fechando alguns ramais (estradas de terra), retirando madeira ilegalmente e criando gado.

Na época, ele virou alvo da Polícia Civil e do Ministério Público do Acre (MP-AC) por desmatar uma área de 600 hectares, além de criar gado e ameaçar moradores e outros invasores da área protegida.

O Batalhão de Policiamento Ambiental (BPA), Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) e Secretaria de Meio Ambiente Estadual (Sema) também apuravam denúncias, na época, contra a filha de Amair, Patrícia Coutinho da Cunha.

Polícia Ambiental quando fez a operação na Floresta Estadual do Antimary

Arquivo/BPA

Ela é quem se apresentava como dona das terras que, supostamente, o pai teria invadido e desmatado. A família de Amair Feijoli se mudou para o Acre em 2020. Contudo, ele continua mantendo residência no Pará, onde também teria terras.

Em maio deste ano, o Batalhão de Policiamento Ambiental (BPA) e o Grupo de Comando e Controle coordenado pela Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag) foram mais uma vez à Unidade de Conservação Ambiental Floresta Estadual Antimary (FEA) apurar denúncias de crimes ambientais.

Algumas pessoas foram presas, houve apreensão de material e o Imac aplicou alguns autos de infrações e embargou a área desmatada. À Rede Amazônica Acre, o comandante do BPA, major Kleison Albuquerque, explicou que as equipes de fiscalização voltaram à região na última semana para apurar novas denúncias.

Desta vez, três homens foram flagrados derrubando árvores castanheiras dentro da unidade de proteção ambiental e presos por crime ambiental. Eles foram levados para a Delegacia de Sena Madureira e liberados durante audiência de custódia na última sexta (24).

Segundo a polícia, os suspeitos são trabalhadores contratados por Amair Feijoli.

Imac já aplicou mais de R$ 1,1 milhão em multa em nome da filha de Amair Feijoli, Patrícia Coutinho, por crimes ambientais

Arquivo/Imac

"Todas as providências em relação a comando e controle que cabe aqui a nível de estado, de resposta imediata, vêm sendo tomadas desde o início, desde antes que não era ele. Agora está em uma esfera acima da capacidade do nossa gestão. Vai para o plano do Poder Judiciário, depende da ação de reintegração de posse, aí envolve governo federal, PGE [Procuradoria Geral do Estado] e essas respostas a gente sabe que sempre são mais lentas", lamentou.

O advogado Ayres Dutra, que representa Feijoli, afirmou que o trio estava do lado do estado amazonense. "Foram presos porque estavam trabalhando", alegou.

Estragos

Conforme dados do Imac, entre janeiro de 2021 e maio deste ano, a região ocupada ilegalmente pela família de Amair Feijoli sofreu um desmate de 225,5 hectares. O instituto emitiu diversos autos de infração por diversos crimes ambientais, apreendeu equipamentos como: motosserras, combustível, correntes e outros.

A Rede Amazônica Acre teve acesso a alguns desses documentos e verificou que, durante esse período, o Imac multou Patrícia Coutinho da Cunha, filha de Amair, em mais de R$ 1,1 milhão por crimes ambientais cometidos na Unidade de Conservação Ambiental Floresta Estadual Antimary (FEA).

Polícia flagrou suspeitos derrubando castanheiras dentro da Floresta Estadual do Antimary, área de preservação ambiental

Arquivo/BPA

O major Kleison Albuquerque destacou ainda que o maior crime praticado na região pela família de Feijoli é o desmatamento ilegal na reserva. Os órgãos ambientais vêm acompanhando a situação desde a mudança da família e, conforme as investigações, há vários pontos de desmatamentos que vêm sendo ampliados ao longo dos anos.

"Já pegaram a área aberta, então, ampliaram o desmatamento e mais, o incentivo às invasões que é um problema que o Acre vem enfrentando e eles estão expandido. O informe que a gente tem é que estão também no lado do Amazonas. Então, de imediato, esse desmatamento, mas também acho que a questão da impunidade. Essa é a pior parte porque se a gente analisar que teve uma resposta imediata com Polícia militar, Civil, Imac, com a própria Semac e agora com a Seplag, que está coordenando o Grupo de Comando e Controle, o que fia a ação dele [Amair Feijoli] é a impunidade. A gente trabalha justamente nessa, não vou dizer lentidão, mas nesse tempo do processo legal. O processo legal é demorado e ele age justamente nesse espaço", criticou.

Envolvido na morte de missionária se apossa de terras públicas no AC e é denunciado por am

Desocupação da área

A reportagem apurou também que o Ministério Público Federal (MPF-AC) ajuizou uma ação civil pública pedindo a desocupação da Fazenda Canaã, que fica dentro da FEA e estaria sendo ocupada pela família de Amair Feijoli. A ação requer ainda indenização pelos danos ambientais e pelo tempo de uso da área, no valor de mais de R$ 5,3 milhões. Esse pedido ainda precisa ser avaliado pela Justiça.

Conforme o documento, entre as partes citadas na ação estão Amair Feijoli e Patrícia Coutinho da Cunha.

"Seja declarada como não incidente na área que integra os limites da Floresta Estadual do Antimary, o título de propriedade a que se refere a matrícula (...). Consequentemente, sejam os requeridos Amair Feijoli da Cunha e Patrícia Coutinho da Cunha condenados em obrigação de fazer, a fim de desocuparem o imóvel e qualquer outra área no interior da Floresta Estadual do Antimary", diz parte do pedido.

O comandante do BPA, major Kleison Albuquerque, disse ainda que a família está desmatando em uma velocidade muito grande.

"Estamos usando o alerta do mais, que é do governo federal, através dele que acompanhamos essa evolução, e acredito que eles só não desmataram mais devido a ação da PM, Imac e do Estado. Mas, se não ocorrer essa ação mais energética, acredito que sim, aquela área ali é forte candidata a ir toda para o chão", concluiu.

Reveja os telejornais do Acre

Fonte: G1

Comunicar erro
LINK NET

Comentários

AUTO ESCOLA