segunda-feira, setembro 21

Como a regulação pode afetar o mercado de criptoativos

A regulação pode transformar de maneira significativa o funcionamento do mercado de criptoativos no Brasil. As mudanças atingem principalmente empresas que prestam serviços com ativos virtuais, operações envolvendo valores mobiliários tokenizados e a forma como transações são informadas às autoridades.

O ponto importante é que regulação não significa que todas as criptomoedas passarão a obedecer às mesmas regras. Bitcoin e a maioria das criptomoedas não são valores mobiliários apenas por serem criptoativos, enquanto determinados tokens podem entrar na competência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Mais exigências para empresas do setor

Um dos efeitos mais diretos da regulamentação ocorre sobre as empresas que prestam serviços de ativos virtuais.

A Resolução BCB nº 520 estabeleceu regras para a constituição e o funcionamento das sociedades prestadoras de serviços de ativos virtuais e para a prestação desses serviços por outras instituições autorizadas pelo Banco Central. A medida integra essas empresas a uma estrutura regulatória mais próxima daquela aplicada a outros participantes do sistema financeiro.

Na prática, isso aumenta a importância de estruturas de governança, controles internos, gerenciamento de riscos e procedimentos de conformidade.

Exchanges podem passar por mudanças

As exchanges e outros prestadores de serviços de ativos virtuais estão entre os participantes mais diretamente afetados pelo novo ambiente regulatório.

A tendência é de maior formalização das atividades abrangidas pelas normas do Banco Central, com requisitos específicos para empresas que atuam em áreas como negociação, intermediação e custódia.

Isso pode modificar processos internos e a forma como determinados serviços são oferecidos aos clientes.

Maior controle sobre determinados produtos

A regulação também pode influenciar quais produtos e ativos são disponibilizados ao mercado.

No caso dos criptoativos que se enquadram como valores mobiliários, a CVM exige o cumprimento das regras aplicáveis ao mercado de capitais, incluindo normas relacionadas a ofertas públicas e negociação.

Isso significa que um token criado sobre uma blockchain não necessariamente será tratado apenas como uma criptomoeda. Dependendo de suas características, poderá estar sujeito às regras destinadas aos valores mobiliários.

Bitcoin não passa automaticamente para a competência da CVM

Um dos efeitos da regulamentação é justamente deixar mais clara essa separação.

A CVM informa que Bitcoin e a maioria das criptomoedas não estão sujeitos à sua regulamentação simplesmente por serem criptoativos. A situação pode mudar quando houver características que façam determinado ativo ou operação se enquadrar como valor mobiliário.

Em abril de 2026, a CVM inclusive esclareceu, em um caso envolvendo o grupo OnilX, que uma determinada ordem não alcançava atividades regulares de intermediação, compra, venda ou troca de criptoativos que não constituíssem valores mobiliários, como Bitcoin, Ethereum e USDT.

Mais informações sobre as operações

Outro efeito importante está relacionado à prestação de informações.

A Receita Federal passou a utilizar a DeCripto, criada pela Instrução Normativa RFB nº 2.291/2025. As operações realizadas a partir de julho de 2026 passaram a ser informadas conforme o novo sistema.

A Receita Federal informa que as operações com criptoativos devem ser declaradas dentro das situações previstas nas regras e que o prazo para envio das informações é até o último dia útil do mês seguinte ao mês em que ocorreram as operações.

Esse processo aumenta a quantidade de informações disponíveis para acompanhamento das atividades realizadas no mercado.

Stablecoins ganham importância

As mudanças regulatórias também ocorrem em um mercado no qual as stablecoins ganharam participação significativa.

Segundo dados da Receita Federal, as stablecoins chegaram a representar cerca de 80% do volume declarado de operações com criptoativos no Brasil em 2026. O órgão também identificou forte crescimento da participação desses ativos desde 2019.

Esse cenário aumenta a relevância das discussões sobre regras para transferência, custódia e utilização de ativos digitais vinculados a moedas tradicionais.

Tokenização pode ampliar a relação com o mercado financeiro

A regulação também pode favorecer uma aproximação maior entre blockchain e mercado de capitais.

Em julho de 2026, a CVM criou um Grupo de Trabalho de Tokenização para estudar e testar atividades como registro, depósito, custódia, negociação e liquidação de valores mobiliários utilizando tecnologias de registro distribuído.

Em setembro, técnicos da CVM finalizaram uma proposta de programa piloto para testar operações com valores mobiliários tokenizados. O objetivo inclui avaliar a viabilidade técnica, operacional e jurídica da tecnologia e identificar eventuais riscos e lacunas regulatórias.

Isso pode abrir espaço para novos modelos de utilização da tecnologia blockchain dentro do mercado financeiro regulado.

A regulação pode aumentar a confiança?

A criação de regras pode proporcionar maior previsibilidade para empresas e participantes do mercado, principalmente quando define responsabilidades, requisitos e mecanismos de supervisão.

Por outro lado, regulação não significa garantia de segurança ou de valorização de um criptoativo.

Continuam existindo riscos relacionados à volatilidade, tecnologia, liquidez, custódia e características específicas de cada projeto.

A própria CVM alerta para riscos de ofertas irregulares e para situações em que produtos são oferecidos sem o cumprimento das regras aplicáveis.

Os custos das empresas podem aumentar

A adaptação às novas normas também pode exigir investimentos adicionais.

Empresas do setor podem precisar desenvolver ou ampliar:

  • sistemas de controle;
  • mecanismos de gerenciamento de riscos;
  • estruturas de governança;
  • procedimentos de identificação e acompanhamento de clientes;
  • sistemas de segurança;
  • equipes de conformidade;
  • mecanismos de monitoramento das operações.

Isso pode aumentar os custos operacionais das empresas que atuam dentro do mercado regulado.

Ao mesmo tempo, a padronização de determinados procedimentos pode proporcionar maior previsibilidade para participantes que pretendem operar formalmente no setor.

A inovação pode ser afetada?

A relação entre regulação e inovação é um dos principais pontos de discussão no mercado.

Regras precisam acompanhar tecnologias que evoluem rapidamente, como blockchain, tokenização e novos modelos de infraestrutura financeira.

A iniciativa da CVM com o Grupo de Trabalho de Tokenização mostra justamente essa preocupação: o órgão pretende testar modelos regulatórios e avaliar riscos antes de estabelecer novas estruturas para valores mobiliários tokenizados.

Assim, o impacto da regulamentação não está necessariamente limitado a impor restrições. Ela também pode criar um ambiente experimental para novas aplicações da tecnologia.

O mercado pode ficar mais concentrado?

Outro possível efeito é uma mudança na estrutura competitiva do setor.

Empresas maiores podem ter mais facilidade para absorver custos relacionados a tecnologia, governança e conformidade, enquanto negócios menores podem precisar adaptar suas estruturas para atender às exigências aplicáveis.

Isso não significa necessariamente que haverá uma concentração maior, mas representa uma questão que pode ser observada à medida que as regras forem implementadas.

O que muda para quem acompanha o mercado?

Para usuários e participantes do mercado, os principais efeitos podem aparecer em diferentes áreas:

Exchanges: maior quantidade de requisitos e controles.

Tokens: necessidade de avaliar a natureza jurídica de determinados produtos.

Operações: maior acompanhamento e prestação de informações em situações previstas nas normas.

Stablecoins: maior atenção regulatória devido ao crescimento de sua utilização.

Tokenização: possibilidade de novos produtos dentro de estruturas reguladas.

Empresas: aumento das exigências de governança, segurança e gerenciamento de riscos.

Regulação não elimina a volatilidade

Mesmo com o avanço das regras, o preço das criptomoedas continua dependendo das condições de mercado.

A regulamentação pode alterar a forma como empresas e determinadas operações funcionam, mas não estabelece um preço mínimo para Bitcoin ou outras criptomoedas.

Também não significa que perdas financeiras deixem de ser possíveis.

Por isso, é importante separar os efeitos regulatórios dos fatores que determinam a valorização ou desvalorização dos ativos.

O que esperar do mercado de criptoativos?

A tendência é de um mercado brasileiro cada vez mais estruturado em torno de diferentes camadas de regulação.

O Banco Central concentra a regulamentação dos prestadores de serviços de ativos virtuais dentro de sua competência, a CVM mantém sua atuação sobre valores mobiliários e a Receita Federal amplia o acompanhamento das operações por meio da DeCripto.

Ao mesmo tempo, a tokenização começa a ser estudada em ambientes experimentais, indicando que a regulação também pode acompanhar novas formas de utilização da tecnologia.

Assim, a principal consequência da regulação para o mercado de criptoativos tende a ser uma maior formalização das atividades abrangidas pelas normas, com novos requisitos para empresas, maior disponibilidade de informações e uma definição mais clara das responsabilidades dos diferentes órgãos.

Data de atualização: 21 de setembro de 2026

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